Tema do 12º EMC, aprofundou o tema Jesus: Caminho, Verdade e Vida, buscando atualizar os meios de estimular as pessoas a permanecerem no Caminho.
“Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” Jo 14,6.
A palavra Caminho tem múltiplos sentidos e pode, ao mesmo tempo, expressar uma orientação, uma direção, um rumo, um destino, um espaço percorrido (ou a se percorrer). No sentido figurado pode significar uma tendência, um modismo ou ainda uma jornada com obstáculos à frente.
Na Bíblia, ela é empregada para identificar a conduta de uma pessoa, tendo por parâmetro a Lei de Deus. Lei decodificada no Antigo Testamento pelo decálogo, e no Novo, pelos preceitos evangélicos, a partir dos ensinamentos e testemunho de Jesus. Um exemplo é o Salmo que diz:
“Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores. Feliz o que se compraz no serviço do Senhor e medita Sua Lei, dia e noite. Porque o Senhor vela pelo caminho dos justos, ao passo que o dos ímpios leva à perdição.” Sl 1, 1-2,6.
No Novo Testamento Jesus identifica o caminho como uma opção diante das oportunidades apresentadas à criatura humana, onde ela, valendo-se da liberdade que Deus lhe concedeu, faz a sua livre opção, arcando, contudo, com as conseqüências de sua escolha. Jesus nos revelou isso ao dizer:
“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram.” Mt 7,13-14.
A palavra caminho é utilizada também para identificar as religiões, uma re-ligação onde se pressupõe, essencialmente, um percurso de volta a algo onde um dia se esteve ligado. Isaías expressa isso objetivamente:
“Abri no deserto um caminho para o Senhor; traçai reta na estepe uma pista para nosso Deus. Que todo vale seja aterrado, que toda montanha e colina sejam abaixadas; que os cimos sejam aplainados e que as escarpas sejam niveladas.” Is 40, 3 - 4.
O caminho para o Senhor a que Isaías se refere, representa a volta do povo hebreu para Deus: uma religação necessária. Os cimos, escarpas, montanhas e colinas representam os obstáculos que se interpõem entre as criaturas humanas, em suas fragilidades, e Deus, que as ama e as espera.
Objetivamente, religiões são caminhos para Deus e, como todos os caminhos, envolvem: um referencial de partida, um trajeto a ser percorrido e um referencial de chegada. Para a religião judaica o ponto referencial de partida foi a libertação do povo hebreu do Egito onde, escravizados, padeceram por 400 anos seguidos, trabalhando na construção das pirâmides.
Após a libertação, o trajeto por eles percorrido foi o deserto, onde este povo perambulou por 40 anos, enfrentando, com a prodigiosa ajuda de Deus, as intempéries, as pragas, a escassez de água e de alimentos, tendo em vista uma meta: Canaã, a terra prometida ou o ponto referencial de chegada.
Contudo, Jesus ao se revelar a nós como O Caminho, não estava simplesmente nos apontando um trajeto a ser percorrido ou uma conduta a ser seguida! Não! Ele foi além! Muito além! Ao se identificar como o Caminho, Jesus, objetivamente, afirmou ser o nosso referencial de partida, o nosso percurso rumo ao Pai e também o nosso referencial de chegada!
Jesus não nos apontou ou simplesmente nos ensinou um caminho, Ele disse: Eu Sou o Caminho! Ora, há uma diferença entre apontar caminhos e Ser O Caminho! É fundamental nos lembrarmos que no tempo de Jesus, não existiam demarcações claras dos caminhos (como hoje as temos: com placas indicativas, mapas e referenciais visíveis) e, para dificultar, os fatos bíblicos aconteceram em regiões desérticas, onde são raros os pontos de referências.
Conduzir as pessoas por caminhos seguros exigia do condutor, habilidades específicas, como conhecimentos de astronomia e um apurado senso de orientação espacial. Mas Jesus, não se apresentou como um guia a nos conduzir por um caminho seguro, Ele foi além: Se mostrou ser O Caminho!
Guias somos nós, evangelizadores que apontam o Caminho Jesus, ou, por excelência, Maria: que trouxe este Caminho até nós! Guias são os santos católicos, que corretamente veneramos, porque permaneceram no Caminho que conduz ao Pai e que, por seus exemplos, testemunhos e conselhos, nos incentivam a fazer o mesmo: percorrermos o Caminho que nos conduz ao Pai.
A Igreja (consequentemente nós que a compomos, pois somos suas células) é um caminho que deve levar com segurança as pessoas ao Caminho Jesus. E este caminho - que conduz as pessoas até Jesus - precisa, necessariamente, ter um ponto de partida, um trajeto e uma chegada.
Esta é a lógica do caminho: partida, percurso e chegada, senão, não é caminho. Em nossas atividades na Igreja e em todas as pastorais, precisamos aplicar esta lógica. Em todas as nossas ações devemos considerar o ponto de partida, o trajeto a ser cumprido e, particularmente, o nosso ponto de chegada. Para isso precisamos planejar objetivamente as nossas ações, senão incorremos no risco de caminharmos e não chegarmos a lugar nenhum.
Insisto em minhas palestras sobre o marketing católico que não vejo a Igreja estabelecer metas quantitativas para as suas ações, sejam elas em âmbito paroquial, diocesano ou nacional. Obviamente existem exceções, mas, de uma forma geral, nos empenhamos em ações e empreendimentos sem definirmos claramente aonde queremos chegar (nosso ponto de chegada).
Costumo dizer que precisamos ser eficazes e não somente eficientes nas atividades e projetos de nossa Igreja. Eficácia é diferente de eficiência. Somos eficientes quando trabalhamos muito, nos empenhamos, cumprimos as normas e regras do trabalho, agitamos, enfim, nos movimentamos. Mas, só seremos eficazes se, com toda esta nossa eficiência, produzirmos resultados.
Resultados não aleatórios ou ocasionais, mas previstos: quantificados e definidos previamente em um planejamento claro, objetivo e eficaz. Resultados planejados e previstos, para serem atingidos em prazos identicamente previsíveis e cumpridos, com toda a eficiência possível.
Logo, para sermos eficazes, precisamos aprender a estipular metas e objetivos a serem alcançados por nossas pastorais. Quando estabelecemos metas em nossas vidas, damos um sentido a elas, focando melhor as nossas ações. Mantendo o foco nos objetivos propostos, as dificuldades e obstáculos do caminho, acabam ficando em segundo plano, sendo mais fácil superá-los!
Quando insisto junto aos pregadores que precisamos retomar a Salvação como meta e objetivo de nossa existência (em nossas pregações e homilias) na verdade estou afirmando isso: é preciso haver um sentido para que o católico se submeta a todas as regras e normas que Jesus (o Caminho) nos deixou.
Sinteticamente o ponto de partida é a nossa adesão, conversão ou inserção na Igreja Católica. O trajeto a ser percorrido são os mandamentos da Lei de Deus e tudo que Jesus nos deixou como regras de vida, conduta e postura, nos Evangelhos. O ponto de chegada (a nossa Canaã) é o céu, como no passado nos era ensinado pelos padres, de uma maneira simples e objetiva.
Retomar a pregação sobre a Salvação é apontar uma meta para todos nós: o céu. Assim o caminho acaba se transformando em santidade e, tendo o céu como o sentido de nossas vidas, as colinas, montanhas, cimos e escarpas, que nos fala o profeta, serão superados com menor dificuldade!
Da mesma forma, o trabalho pastoral nas paróquias precisa ter claramente um ponto de partida, um trajeto a ser percorrido e, principalmente, um ponto de chegada que, em síntese, seria uma meta a ser alcançada. Meta que, ao menos, justifique todo o investimento: humano, material e de tempo, despendido naquela pastoral ou naquelas ações!
Precisa ser assim com a catequese, a crisma, a pastoral familiar e todas as demais pastorais existentes, os trabalhos de assistência social e humanitária desenvolvidos pelas comunidades, enfim em todas as outras iniciativas em que a paróquia esteja, direta ou indiretamente, envolvida.
Já está na hora de colocar isso em prática, mesmo se, para tanto, precisarmos rever e mudar radicalmente os nossos métodos de trabalhos, os roteiros de nossas pastorais, as nossas homilias e pregações, nossos modelos de retiros, nossas celebrações litúrgicas, nossos encontros vocacionais, nossa catequese, enfim, tudo o que envolva a nossa missão para que todos, indistintamente, encontrem Jesus o único Caminho que nos conduz a Deus.
É preciso colocar em prática o que a hierarquia da Igreja (Santa Sé, CNBB, CELAM, dioceses e paróquias) coloca no papel, em tantos documentos! Chega de ignorarmos os documentos, cartas pastorais e encíclicas! A Igreja precisa colocá-los em prática, buscando resultados concretos! Para isso é preciso planejar, agir e atingir resultados previamente projetados! Não basta repetirmos que Jesus é o Caminho! É preciso conduzir a humanidade a Deus por meio do Caminho Jesus... Esta é a missão da Igreja: a nossa missão!
VERDADE
Este Caminho até Deus passa pela Verdade, mas, como disse Pilatos: o que é a verdade? Ora, verdade é a perfeita transparência de nossos atos, pensamentos e, principalmente, de nossos sentimentos. Verdade é a expressão real de nosso interior revelada em nossas atitudes, posturas, palavras e gestos. Verdade é tudo o que somos e sentimos, sem máscaras.
Na Bíblia, um dos malfeitores crucificados no Calvário nos dá um exemplo de verdade, quando ao defender Jesus, que estava sendo ofendido pelo outro crucificado, diz: “Para nós isso é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum.” Lc 23, 41.
Nesta frase ele expressa a verdade e, verdadeiramente arrependido, conclui: “Jesus lembra-te de mim quando tiveres entrado no teu Reino!” Diante da verdade e do arrependimento sincero, Jesus responde a ele: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.” Lc 23, 42-43. A verdade, amigos e amigas, nos conduzem pelo Caminho, até o céu: Deus!
Outro exemplo é o do centurião, que pede a Jesus que minimize a dor de seu servo que sofria em sua casa, acamado e paralítico. Jesus lhe diz: “Eu irei (à sua casa) e o curarei” (Mt 8, 7), mas o centurião, deixando transparecer a verdade, responde: “Senhor eu não sou digno que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado.” Mt 8,8.
Verdade, sinceridade e fé são elementos inerentes ao Caminho. Até que ponto a verdade permeia as nossas pastorais em nossas paróquias? É comum encontrarmos em muitas paróquias, pastorais que não se entendem e até mesmo não se suportam, deixando transparecer tantas coisas existentes entre os seus membros, menos a Verdade que é condição essencial ao convívio.
Para permanecermos no Caminho Jesus, precisamos nos fundamentar na verdade, pois Jesus e a Verdade são intrínsecos e esta verdade exige de nós posturas coerentes com o Evangelho que pregamos. Muitas de nossas ações pastorais não caminham porque nos faltam: humildade e unidade.
VIDA
Quando o Mestre nos ensina a sermos Caminho e Verdade como Ele, está, ao mesmo tempo, nos conduzindo à vida. E vida em plenitude! “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Como Deus libertou o povo hebreu, Jesus também quer nos dar vida plena, libertando-nos do Egito! O estigma do Egito permanece até os dias de hoje, como uma sombra sobre a humanidade, geração após geração. Mas, o que seria este Egito permanente ao longo da história da Salvação?
Todo e qualquer tipo de opressão ou escravidão sobre os filhos e filhas de Deus. Podemos identificar hoje, sem dificuldades, dezenas de “egitos”: o egito das drogas, da moda, do ter, do poder e do prazer, da discriminação social e racial, da corrupção dos costumes, da ética e da política, etc.
Sempre que alguém se liberta de seu “egito”, se insere no Caminho e a partir daí inicia o percurso que deve levá-lo até Canaã, o céu! Jesus é: o ponto de partida, o trajeto a ser percorrido e o ponto final! Para que isso aconteça, Ele estabeleceu na terra a Sua Igreja, fundamentada em Seus apóstolos: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” Mt 16, 18.
Estabeleceu-a por meio de Pedro, confirmou-a e, após Sua Ressurreição, ordenou-lhe por três vezes: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21, 17). Finalmente, momentos antes de ascender ao céu, deixou clara a missão da Igreja que estabeleceu, prometendo permanecer junto dela:
Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.” Mt 28, 19-20.
Resta-nos “meter a mão na massa”, levedando-a como o bom fermento do nosso testemunho! Vamos fincar o arado na terra, com olhos fixos no horizonte: “Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62) e, confiantes, semear a boa semente no coração de todos que encontrarmos pelo caminho. É preciso mais conversões e menos reuniões na Igreja! Menos reuniões e mais união em nossas equipes.
Precisamos nos unir por que: “Grande é a messe, mas poucos são os operários” Lc 10, 2. Ora, se não temos operários suficientes (presbíteros) para a colheita que amadurece dia a dia pelo mundo, precisamos ser muito mais unidos em nossa missão, pois Jesus nos alertou que: “Todo reino dividido contra si mesmo, será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma, tal casa não pode subsistir”. Mt 12, 25.
Unidade, objetividade, eficácia e verdade precisam ser prioridades em nossas pastorais. Temos uma multidão incontável de católicos somente “sacramentados” (que estão inseridos em nossa Igreja apenas pela recepção de um ou mais sacramentos), que necessitam ser evangelizados e motivados por meio de nosso testemunho e do nosso trabalho: planejado e eficaz.
Prova disso são as pesquisas de opinião que mostram que a maioria absoluta dos brasileiros (país majoritariamente católico de acordo com o Censo) manifesta-se contrária às determinações da Igreja Católica, como na recente pesquisa efetuada para saber sobre a liberação do aborto no Brasil.
Não temos fórmulas prontas para esta transformação, mas sim a percepção e a constatação de que a metodologia que temos usado perdeu a sua eficácia ao longo das décadas. Há tempos deixamos de crescer e até estamos decrescendo, apesar da população no Brasil e no mundo aumentar vertiginosamente. Este é o desafio que com humildade precisamos enfrentar.
Antonio Miguel Kater Filho