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17.Nov - Por que é tão difícil viver a santidade?
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Por que é tão difícil viver a santidade?

“Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, e nos escolheu n Ele, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de Seus olhos.” Ef 1, 3 – 4 .


Apesar desta exortação de São Paulo expressar a vontade de Deus, muitos cristãos alegam ser difícil viver a santidade. Ora, i sso me levou a refletir sobre o que é viver a santidade, de acordo com o plano de Deus para nós. Na Bíblia nos deparamos centenas de vezes com a palavra santo, tanto em citações do Antigo como do Novo Testamento, mas, a maioria delas, identificando-a com Deus ou então a apresentando como uma virtude.


Contudo, a palavra referindo-se a uma postura humana nesta vida é rara, menos comum no Antigo e mais presente no Novo Testamento. Porém, na Bíblia encontrarmos os vocábulos: justo, sábio e perfeito, que são a mesma coisa. Logo, santo, justo, sábio ou perfeito tem o mesmo significado teológico e são pistas seguras para descobrirmos o caminho da santidade.


São Pedro, em sua primeira carta aos cristãos neo-convertidos, espalhados por aquela região - a quem ele identifica como eleitos segundo a presciência de Deus (como Paulo afirma no texto bíblico anterior) e santificados pelo Espírito (I Pd, 1, 2) - assim se expressa sobre a santidade:


“A exemplo da santidade daquele que vos chamou (Deus), sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: Sede santos, porque Eu sou santo (Lev 11,44).” I Pd 1, 15 – 16.


No livro do Levítico no Antigo Testamento, de onde Pedro extraiu a citação: Sede santos, porque eu sou santo, a frase é precedida de diversos preceitos legais que o povo judeu estava obrigado a seguir sob pena de morte. Porém, ao lermos atentamente cada um destes preceitos “divinos”, veremos que se referem a hábitos salutares que visavam principalmente preservar a saúde daquele povo, distinguindo-os dos outros povos pagãos.


São, na verdade, práticos ensinamentos profiláticos, entre outros, que orientavam o povo quanto ao consumo da carne de animais, aves e todos os seres vivos que se movem nas águas e a todos aqueles que se arrastam sobre a terra (Lv 11,46) e a outros costumes como a convivência com leprosos, a higiene, as heranças, as relações sexuais, o culto a Deus, etc.


Apesar de a santidade estar ligada à obediência que devemos a Deus, ela é muito mais do que simplesmente seguirmos preceitos alimentares, regras de higiene ou cultuais. Podemos, a partir daí, entender o motivo da justa correção que Jesus fez aos fariseus (rígidos observadores da lei) quanto à sua conduta como líderes religiosos. Eles seguiam rigorosamente todos os preceitos legais, mas não se comportavam como pessoas santas:


“Vós, fariseus, limpais o que está por fora do vaso e do prato, mas o vosso interior está cheio de roubo e maldade! Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o conteúdo? Dai antes em esmolas o que possuis, e todas as coisas vos serão limpas.” Lc 11, 39 – 41 .


A santidade, de acordo com Jesus, extrapola regras ou preceitos religiosos, penetrando o interior do homem e da mulher. Daí exala para o exterior do corpo por meio de atos concretos e reais de misericórdia, como dar generosas esmolas aos mais pobres e necessitados. A santidade, ainda de acordo com Jesus, necessita atingir o coração do homem para transformá-lo.


“Chamando o povo dizia-lhes: Ouvi-me todos e entendei. Nada há fora do homem que entrando nele o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem. Porque é do interior do coração do homem que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem.” Mc 7, 14 – 15. 20 – 22 .


Esta advertência de Jesus nos reitera que Deus precisa penetrar o âmago de nosso ser para nos purificar, logo, como afirmamos anteriormente, a santidade não se restringe, simplesmente, à prática de preceitos religiosos exteriores, mas sim ao empenho de uma verdadeira conversão interior!


A carta aos hebreus, nos apresenta a necessidade deste empenho para nos convertermos verdadeiramente: “Desvencilhemo-nos das cadeias do pecado! Corramos com perseverança ao combate proposto, com olhar fixo no autor e consumador de nossa fé: Jesus. Em vez de gozo que se lhe oferecera, Ele suportou a cruz e está sentado à direita do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente Aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado!” Hb 12, 1 - 4.


Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado! Daí advém as dificuldades alegadas por nós para vivermos a santidade em plenitude, pois é necessário muito esforço, muita renúncia, muitas orações, enfim muita luta para vencermos o pecado que se aloja em nosso coração.


É mais fácil convertermos os outros com nossas pregações do que convertermos a nós mesmos, mudando o nosso interior . São Paulo, na carta aos Romanos, dirigindo-se aos escribas, mestres e doutores da lei já nos advertia a todos nós, pregadores e estudiosos da Palavra, questionando:


“Tu que te apóias na Lei, e te glorias de Teu Deus; tu que conheces a Sua vontade e instruído pela Lei sabes aquilatar a diferença das coisas; tu que te ufanas de ser guia dos cegos, luzeiro dos que estão em trevas, doutor dos ignorantes, mestre dos simples, porque encontras na Lei a regra da ciência e da verdade; tu que ensinas aos outros...não te ensinas a ti mesmo?   Rm 2, 17 – 21.


E este trecho duro e forte da Palavra de Deus continua nos advertindo: “Tu que pregas que não se deve furtar, furtas! Tu que dizes que não se deve adulterar, adulteras! Tu que te glorias da Lei, desonras a Deus pela transgressão da Lei?” E conclui: “ Por vossa causa o nome de Deus é blasfemado entre os pagãos.” Rm 2, 21-24.


Quando ouço leigos e pessoas afastadas da religião blasfemarem por se escandalizarem com a conduta de certos coordenadores de pastorais, ministros da eucaristia, líderes, pregadores da palavra ou mesmo alguns padres e religiosas que não se comportam como deveriam se comportar as pessoas consagradas ou a serviço de Deus, me lembro da passagem acima: “Por vossa causa o nome de Deus é blasfemado entre os pagãos.”


Por essa razão aquela palavra de advertência de Jesus incomoda muitas pessoas de aparente “vida religiosa” ou de enorme piedade exterior:


“Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus.” Mt 7, 21 -23 .


Jesus afirma nunca ter conhecido estes maus operários, porque certamente eles pregaram a santidade, mas no íntimo não a viveram. Anunciaram a Verdade, mas viveram entre mentiras. Propagaram a Vida verdadeira, mas, em suas vidas interiores, se enredaram pelos caminhos da morte. Apontaram o Caminho, mas se embrenharam por atalhos duvidosos...


“Entrará no reino dos céus, aquele que fizer a vontade do Pai” . Fazer a vontade do Pai é lutar para vivermos plenamente a santidade nesta vida cheia de tentações, de injustiça, de ódios, de maldade, de violência e desamor, sem nos deixarmos envolver pelo mal. É estarmos no mundo sem sermos do mundo, nem nos deixarmos corromper pelas coisas do mundo!


Ciente deste risco, Jesus, ao despedir-se dos discípulos, antes de se entregar para ser julgado e crucificado pelos homens, em uma longa oração dirigida ao Pai, assim pediu por eles e por todos nós cristãos: “Dei-lhes a Tua palavra, mas o mundo os odeia, porque eles não são do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal.” Jo 17, 14-15.


Mal que, além de espalhar o medo, o terror, o desamor e a injustiça por onde passa, consegue nos envolver a ponto de passarmos a acreditar ser válido nos valermos dele para o combatermos, pagando o mal com o mal. E isso, infelizmente, nós observamos, com certa freqüência, até em nossas pastorais, paróquias, congregações e demais instituições religiosas...


Atitudes totalmente opostas à conduta de santidade que deveríamos ter nesta vida, pois sempre que nos valermos do mal, mesmo sob o pretexto de combatê-lo, o máximo que estaremos fazendo será disseminá-lo pelo mundo, aumentando a sua força e ampliando o seu campo de atuação entre nós.


Por isso nos ensina a Palavra de Deus: “Não pagueis a ninguém o mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem.” Rm 12, 17-21.


Triunfar do mal com o bem sim, é conduta de santos! Basta nos recordarmos do comportamento de Jesus em seu julgamento, na subida do calvário e em Sua morte na cruz: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.” Lc 23,34.


Quando retribuímos o mal com o bem, nos reitera a Palavra de Deus, pomos brasas sobre as cabeças de nossos algozes: “Tem o teu inimigo fome? Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber: assim amontoarás brasas ardentes sobre sua cabeça e o Senhor te recompensará.” Pv 25, 21.


As brasas que a Palavra de Deus se refere são os gestos inusitados de amor dos santos que mesmo sendo perseguidos, caluniados, açoitados, injustiçados, humilhados e castigados, respondem sempre com o bem, desnorteando aqueles que os oprimem. Enquanto os atos maus são frios, o bem e suas conseqüências são quentes, “incendiando” quem os recebe.


Após proferir o Sermão da Montanha, Jesus conclui: “Amais os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica. Dá a todo que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames. O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles.


Se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Pois o mesmo fazem os pecadores. Se emprestais àqueles de quem esperais receber, que recompensa mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores para receberem outro tanto. Pelo contrário amais os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem daí esperar nada.


E grande será a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom para os ingratos e maus”. Lc 6, 27 - 35 .


Sermos filhos e filhas do Altíssimo significa correspondermos ao Seu chamado e à escolha que Ele nos fez antes da criação do mundo, quando éramos apenas um projeto em Seu coração, como vimos nas passagens bíblicas que abriram esta nossa reflexão. Nossa santidade é a nossa resposta a Deus.


E grande será a nossa recompensa! Obviamente não neste mundo onde somos apenas peregrinos, pois dele não fazemos parte. Porque, como afirmou Jesus sobre nós, orando e nos entregando aos cuidados ao Pai: “Eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo.” Jo 17, 16.


Ora, amigos e amigas em Cristo, se não somos deste mundo, como Jesus também não o é, a recompensa prometida nos será dada não aqui neste mundo, mas no Reino de Deus onde temos a nossa morada eterna! Lá estão: o prêmio, a recompensa, o triunfo derradeiro sobre o mal e suas conseqüências. 


Talvez esta seja uma outra dificuldade de vivermos, neste mundo, a santidade: o cumprimento da promessa geralmente não se dá nesta vida, mas sim na eternidade, de onde ninguém voltou para nos certificar disso. Logo nos resta viver a santidade acreditando na promessa de Jesus. Resta-nos viver pela fé, virtude maior dos santos: “O Justo viverá pela fé.” Rm 1, 17.


Mas, viver simplesmente pela fé não é nada fácil e, em certas circunstâncias, nos traz também conseqüências dolorosas, como o mesmo São Paulo afirma na carta a Timóteo: “Aliás, todos os que quiserem levar uma vida fervorosa(de fé) em Cristo Jesus, serão perseguidos”. II Tim 3, 12


Concluindo, amigos e amigas, nossa santidade é difícil de ser vivida neste mundo porque, infalivelmente, passará pelo calvário e pela cruz, sem distinção. Lendo a vida de muitos santos - incluindo São Paulo que tanto admiro e de onde tirei muitas conclusões para este reflexão – percebi que todos sofreram perseguições, incompreensões e injustiças, indistintamente.


À exemplo de Jesus, que a todos inspirou, eles experimentaram na carne todo tipo de dor, por viverem aqui a santidade. Os que ousaram fundar novas ordens religiosas foram atacados pelos superiores e pela hierarquia da Igreja em sua época. Banidos, caluniados e até ameaçados de excomunhão, sofreram até a morte, alguns sem ver concluído o seu projeto ou o seu sonho.


Mesmo assim não desistiram: viveram a santidade até o último suspiro de suas vidas terrenas. Como muitos de nós, tiveram dúvidas e temeram em muitos momentos da caminhada. Caminhada árdua e entremeada por obstáculos e enormes dificuldades. No percurso se cansaram, mas não desistiram. Descansaram, mas não interromperam sua escalada rumo ao céu.


Aliás, um pequeno versículo que encontrei no Livro dos Provérbios resume o que eu ousei lhe dizer nesta minha reflexão: “O sábio escala o caminho da vida, para evitar a descida à morada dos mortos.” Pr 15, 24.


Sábios são todos os que procuram viver a santidade. O caminho é Jesus a estrada que nos conduz à vida. Ele a abriu com Seu sangue para nos salvar, nos dando ainda o Seu corpo para nos alimentar na jornada. A escalada são as dificuldades inerentes de uma vida de santidade, obstáculos necessários para provarmos nossa fé por meio de ações, ao que chamamos de provações!


A vida é o céu, a recompensa prometida que nos aguarda. A descida é o caminho fácil que o mundo nos propõe ou a nossa preguiça para enfrentarmos a “subida” ao céu: íngreme e difícil... Descer é mais cômodo e muito mais fácil do que subir, mas ao fim da descida nos espera a morada dos mortos e nossa vocação não é a morte e sim a vida!


Fonte: Antonio Miguel Kater Filho

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