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17.Nov - Sob o sinal da Cruz
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Sob o sinal da Cruz

São Paulo, em suas cartas, dirigidas às primeiras comunidades cristãs, já se manifestava a respeito dela, definindo-a como escândalo e loucura para alguns e sinal de vitória para outros.


A cruz, sob a qual nossa Igreja nasceu, cresceu e se consolidou, ainda é, passados dois mil anos, motivo de rejeição para muitos e redenção para outros.


Quem de nós, em sã consciência, gosta das cruzes que amargamente se vê obrigado a carregar, ao longo do calvário de suas vidas?


Quem, mesmo professando a fé cristã, vai feliz correndo ao seu encontro e a abraça festivamente, subordinando-se ao seu jugo e à sua dolorosa humilhação, sem profundos questionamentos pessoais?


Até o próprio Jesus, antes de abraçá-la, ao pressentir a sua proximidade, prostrou-se por terra em oração suplicante, pedindo ao Pai para que D’Ele fosse afastada tamanha ignomínia.


Só isso, amigos, já seria motivo de grande consolo e incentivo para nós cristãos ainda frágeis, medrosos e tíbios na fé, diante de nossas cruzes.


No mundo de hoje que supervaloriza o conforto, as facilidades e tudo o que nos proporcione bem-estar e prazer, falarmos de cruz é, no mínimo, andarmos na contramão, correndo o risco de sermos taxados de loucos ou atropelados pelas pessoas que nele transitam em sentido contrário.


Mas, queiramos ou não, nós, cristãos, vivemos sob o sinal da cruz em ambos os aspectos: positivos ou negativos.


Positivamente, vivermos sob o sinal da cruz significa contarmos com suas benesses, pois dela é que jorra o sangue libertador do Cordeiro de Deus, que nos livrou da condenação eterna e nos abriu novamente a possibilidade da redenção de nossos pecados.


A cruz é também a nossa proteção, visível e real, contra o mal, que a abomina e foge de sua presença, pois ela antecipou a sua derrota na interminável luta contra o bem, que se estende até hoje e só terminará no dia do juízo final.


Por isso é que, ao iniciarmos as nossas orações, as nossas celebrações, a instituição dos sacramentos e todos os nossos outros atos, devemos fazê-los sempre sob o sinal da cruz, traçada sobre os nossos corpos, identificando assim a nossa pertença a Deus.


Ao traçarmos o sinal da cruz sobre a nossa fronte, devemos pedir que ela proteja a nossa razão dos maus pensamentos; quando a traçarmos sobre os nossos lábios, pediremos que ela guarde a nossa língua para que não seja um instrumento a serviço do mal e, finalmente, ao fazermos a cruz sobre o nosso peito, rogaremos para que ela proteja o nosso coração dos ressentimentos, do ódio e dos maus desejos.


Sim, amigas e amigos, verdadeiramente a cruz nos protege e sinaliza, ao mundo, a nossa pertença a Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, que nos guardam dos espíritos malignos, espalhados pelos ares, à espreita, para nos atacar.


"Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares." Efésios 6, 12.


Porém, em contrapartida, a cruz é também um sinal de nosso compromisso com Jesus, que apresentou-a como condição, se, literalmente, quiséssemos seguir os Seus passos aqui na terra: "Se alguém quer me seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me." Mc 8, 34b.


Tomarmos as nossas cruzes, penso que não exista compromisso mais difícil do que este para nós cristãos pois, sinceramente, não é fácil subjugarmo-nos às cruzes que diariamente colocam em nossos ombros, ao longo de nossas vidas... 


Sempre que ouço pessoas, assumidamente cristãs e comprometidas com o Evangelho, queixando-se das muitas dificuldades que enfrentam, até mesmo nas atividades religiosas que gratuitamente exercem a serviço de nossa Igreja, lembro-as de que nós, cristãos, voluntariamente, nascemos, crescemos, vivemos e morremos sob o sinal da cruz.


Enfrentarmos doenças que minam a nossa saúde ou a de nossos familiares significa vivermos sob o sinal desta terrível cruz que purifica, humilha e nos permite antever o pó que somos, ao qual, um dia, todos nós, mortais, seremos reduzidos.


Sermos perseguidos, difamados, invejados, caluniados e traídos, até por amigos que diziam ser fiéis e sinceros, é experimentarmos o peso de uma cruz dolorosa que, se não cuidarmos, poderá nos derrotar pelo desejo da vingança ou do troco na mesma moeda, como faziam os antigos judeus que ainda não haviam circuncidado os seus duros e insensíveis corações.


Estarmos atormentados por tentações que nos assolam de todos os lados, fruto da malícia e da maldade dos homens que vivem sob o signo do ter, do poder e do prazer, é também arrastarmos penosamente as nossas cruzes diárias, aprendendo, com elas, a driblarmos o mal que nos espreita e quer, a todo custo, nos envolver em suas teias.


"Que sabe aquele que não foi experimentado? Aquele que não tem experiência pouca coisa sabe. Mas o que passou por muitas dificuldades desenvolve a prudência. Que sabe aquele que não foi tentado? Eclo 43, 9 a.10.11 a .


Sentirmo-nos incompreendidos ou até abandonados por todos, amargando a solidão de nossos pensamentos, é também carregarmos uma pesada cruz que nos faz sentir impotentes, que não resistiremos ao seu peso e que sucumbiremos na próxima queda, nos deixando, ao mesmo tempo, cada vez mais humildes e dependentes de Deus


E, por falarmos em quedas, como são doloridas as nossas constantes quedas, especialmente as que ocorrem sob o fardo da cruz, e atingem o âmago de nosso ser!


Como nos ferem a angústia, o sentimento de conivência com o pecado, a falsa sensação de estarmos sendo abandonados por Deus, o medo, as preocupações, a insegurança e a ausência da paz, que nos assolam nestes momentos de aridez espiritual, sob o jugo da cruz.


Porém, tudo isso que enfrentamos, se analisarmos friamente, servirá para nos amadurecer, fazer dobrar a nossa dura cerviz e nos preparar para a estação seguinte de nossa via-sacra


Ora, se isso servir de consolo e conforto, nos lembremos de que todos os cristãos, sem exceções, passaram, passam ou ainda passarão pela purificação da cruz, nesta caminhada terrestre, a começar por Aquele que nos abriu o Caminho e o apontou para que todos nós, que nos propuséssemos a seguí-Lo, o trilhássemos.


Retrucariam alguns: "- Mas, bem que o Mestre poderia nos ter poupado desta amarga experiência da cruz aqui na terra." Existe, porém, uma curta passagem bíblica do Antigo Testamento, quase imperceptível, escrita duzentos anos antes do nascimento de Jesus, que já profetizava:


"O sábio escala o caminho da vida, para evitar a descida à morada dos mortos." Eclo 15, 24.


A escalada, amigas e amigos, representa a íngreme e difícil subida do calvário e é ela que nos conduz ao Caminho da Vida Eterna, ao contrário das propostas do mundo que nos oferecem a descida, aparentemente fácil e sem muito esforço, que nos leva, inevitavelmente, à morte eterna.


Minha querida esposa, a quem Deus aquinhoou com o dom da Sabedoria, costuma dizer às pessoas aflitas que a procuram para orações e orientação espiritual, que de todo mal aparente, Deus tira um bem permanente.


Isto não significa concluirmos, afoitamente, que o mal que nos aflige seja provocado por Deus, para nos fazer sofrer e padecer, gratuitamente, aqui na terra. Não, isso não é verdade, nem é correto pensarmos dessa maneira. O mal do mundo e no mundo, não provém de Deus que é a fonte de todo o Bem.


Esse mal que viceja nos corações humanos, como a erva daninha infiltrada nas plantações, provém de outras fontes, malignas, espalhadas por toda a terra.


Ele é conseqüência do mau uso da liberdade que todo ser humano usufrui e que lhe foi legada por Deus que, liberalmente, a concedeu a todos os seus filhos, indistintamente. Todo mal que nos aflige é decorrente da livre escolha humana de optar por outros caminhos, contrários ao Caminho de Deus.


Esta livre opção humana, quando divergente de Deus, gera o pecado que, por sua vez, como um maligno foco contagioso, vai corroendo os pecadores, que sofrem as suas conseqüências e que, por causa deste sofrimento, arrastam outros em seu caudaloso rastro de dor, inclusive muitos inocentes, que cruzam os seus caminhos.


As dores, as doenças, as desavenças, enfim, as causas de nossas cruzes são provenientes do pecado do mundo que, por sua vez, realimenta o mal como um poderoso adubo, impedindo assim a sua total eliminação, como ocorre com as grandes pragas que procuram destruir as plantações.


Porém, Deus, valendo-se dos sofrimentos oriundos de nossas cruzes, vai nos ensinando a, deles, extrairmos lições e antídotos que, se por nós forem aprendidas e utilizados, irão, à medida que caminharmos, imunizando-nos contra as ofensivas futuras do maligno; por isso a certeza de que: de todo mal Ele sempre tira um bem.


Vamos, portanto, carregar a cruz em ambos os sentidos: abraçando-a para, com ela, nos protegermos do mal e, ao mesmo tempo, arrastando-a para, por ela, nos exercitarmos no bem.


Assim ela será para nós, como foi para Jesus, motivo de redenção dos pecados (não os dele, que não existiram, mas os de toda a humanidade, assumidos por Ele) e de Ressurreição para a eternidade.


Fonte: Antonio Miguel Kater Filho

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