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17.Nov - Vinho novo em odres novos
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Vinho novo em odres novos

Uma das frases mais contundentes de Jesus, ao observar os conflitos religiosos de sua época, foi sem dúvidas esta: "vinho novo em odres novos".


Penso que, se este sábio conselho nos foi dado pelo próprio Mestre, podemos, ainda hoje, nos valermos dele para buscar novas soluções, ou novos caminhos, para velhos problemas, nesta área tão sensível da religiosidade.


Leio e ouço, diariamente, opiniões favoráveis e contrárias, às tentativas da Igreja Católica em atualizar, ou melhorar, a comunicação com seus fiéis seguidores, com possíveis adeptos e também com as "ovelhas desgarradas" do rebanho.


A Igreja, como qualquer outra instituição secular, tem ciência de que, na velocidade em que caminha a evolução tecnológica no mundo, quem não se mantiver atualizado, correrá o risco de "perder o bonde" da história, ficando a margem deste processo tão rápido que, as vezes, chega a assustar, até mesmo os seus criadores e principais protagonistas.


Porém, mesmo diante desta realidade, são muitos os que ainda resistem, até as últimas trincheiras, e condenam, com veemência, as recentes mudanças no comportamento dos padres na condução das celebrações, as necessárias modificações na liturgia e principalmente a maxi-utilização dos recursos e meios que permitam que as verdades evangélicas atinjam eficazmente as pessoas que, hoje, vivem de maneira bastante diferente da qual viviam seus pais, avós e bisavós.


Percebo, com freqüência, nos grandes centros urbanos, a insistência de alguns em se manter ainda uma Igreja com características e hábitos rurais, criando assim um verdadeiro abismo entre a instituição e seus possíveis adeptos ou mesmo os freqüentadores habituais.


Só para exemplificar, poderíamos lembrar a inadequação dos horários usuais das celebrações diárias e do expediente para o atendimento ao público, praticados pela maioria das paróquias urbanas, nas grandes cidades.


Os horários das missas diárias, geralmente, são determinados pelo "relógio rural" que caminha no ritmo da natureza, ou seja uma celebração pela manhã, logo ao raiar do dia (entre 6 e 7 h. da manhã) ou no horário vespertino, ao entardecer (entre 18 e 19 h. da noite).


Agora, parando um pouco para pensar, em nossos dias, qualquer cidadão moderno, seja ele criança, jovem ou adulto, enfrenta, no seu cotidiano, horários totalmente incompatíveis com estes, além de tantos outros obstáculos, que acabam impedindo-o de participar destas celebrações, mesmo que o deseje em seu coração.


O tempo gasto atualmente no transito, nos deslocamentos até o local de trabalho, ou rumo a escola, aliado as múltiplas atividades que cada pessoa se vê obrigada a envolver-se, não permitem que ela freqüente assiduamente a sua paróquia, por falta, muitas vezes, de adequação dos horários, e não de vontade ou necessidade destes fiéis.


Ouço, com freqüência, queixas, procedentes e justas, de católicos que necessitam de documentos ou de outras providencias burocráticas junto a Igreja, que não encontram aberto o expediente paroquial (ou diocesano), para solucionar isto, por que o mesmo continua, como no calendário rural de outrora, fechado para o almoço sendo, muitas vezes, esse, o único horário que elas dispõem para resolver seus problemas pessoais, sem perder horas de serviço.


Some-se a isso a inadequação do horário das aulas de catecismo infantil, normalmente nos fins de semana à tarde, que, muitas vezes, impede a família de ter o seu justo e merecido lazer em grupo, criando para todos uma situação de insatisfação e descontentamento em relação a Igreja.


Esta inadequação horária, normalmente, gera conflitos entre paróquia e paroquianos que, muitas vezes, se vêm obrigados a não cumprir os compromissos religiosos, por incompatibilidade de horários.


Vinho novo em odres novos, eis a solução proposta por Jesus!


A Igreja funciona como um grande odre, que precisa acolher todo o fruto proveniente da imensa vinha de Deus, ou sejam os novos fiéis (crianças, jovens ou adultos) que de alguma forma, animados pelo Espírito Santo, precisam ser guardados, protegidos e preparados por ela, até que atinjam a maturidade espiritual e possam então servir a comunidade, com seus dons e talentos.


Esse novo vinho, com toda sua força e pujança, se é inadequadamente colocado em odres velhos, pode romper os odres e, o que é pior, pode escoar-se todo pelo chão, num desperdício muito grande das coisas mais preciosas de Deus: os seus filhos muito amados.


A Igreja necessita rever, urgentemente, os seus métodos operacionais, adequando-os à uma nova realidade de vida, imposta pela sociedade que, hoje, desenvolveu novos ciclos e novas modalidades de trabalho, invadindo os horários tradicionais e modificando, sensivelmente, alguns hábitos seculares.


Só para ilustrar, costumo citar dois exemplos, de bom senso e adequação a esses novos hábitos, envolvendo dois jovens sacerdotes: um da cidade de São Paulo e outro de Piracicaba, interior do estado de S.P.


Ambos, ao perceberem a baixa freqüência de fiéis nas missas nos horários convencionais, resolveram inovar celebrando em horários não usuais, porém compatíveis com o público que queriam conquistar, obtendo sucesso imediato.


Em São Paulo, na Igreja da Consolação, bem no centro desta megalópole, é possível participar da Santa Missa, diariamente as 12 h., horário bastante concorrido, com a Igreja lotada de fiéis simples, executivos e pessoas de classe média, que aproveitando o intervalo do almoço, vão abastecer-se de Deus, participando da Eucaristia, num horário habitualmente reservado às refeições materiais!


Em Piracicaba, aos sábados às 22 h., podemos encontrar uma animada Igreja, lotada de jovens que neste horário noturno, antes de iniciarem sua noitada pela madrugada a dentro, participam da celebração eucarística, cumprindo o preceito dominical e, ao mesmo tempo, reabastecendo-se do Pão do Céu para que possam combater suas fraquezas e lutar contra as muitas tentações que certamente os assolarão nos embalos da noite.


Ocorre-me ainda o exemplo de uma paróquia na cidade de Goiânia, administrada por um jovem sacerdote franciscano, que contratou duas moças para o atendimento ao público, para que assim o expediente paroquial não permanecesse fechado durante o horário de almoço, havendo um revezamento entre elas.


São coisas simples, porém bastante eficazes que podem e devem ser feitas para que a Igreja possa melhor atender aos seus fiéis.


Além dos horários, urge revermos o conforto mínimo que podemos oferecer aos que participam das celebrações no que diz respeito a anatomia dos bancos, sonorização do ambiente, iluminação, decoração interior e temperatura interna.


São quesitos observados hoje pela maioria das instituições, privadas ou governamentais, buscando sempre a satisfação dos usuários, clientes e consumidores.


A mesma atenção, à eles dispensada por estas empresas, deve ser observada pela Igreja que deveria identificar o fiel católico como a pessoa mais importante da instituição, dando a ela sua melhor atenção, carinho e respeito.


Hoje, as mais modernas teorias de administração em marketing enfocam o cliente como o principal ponto de atenção das empresas, pois sem clientes, não existem negócios e sem negócios as empresas deixam de existir..!


Ora, apesar do vocábulo negócio parecer estranho às atividades religiosas, da mesma forma, queiramos ou não, as atividades da Igreja, que envolvem a fé, a evangelização, a distribuição dos Sacramentos que conduz à Salvação, deixarão de existir se não houver mais fiéis freqüentando nossos templos, cultos e sacramentos.


Esta na hora de nos desalojarmos, sairmos das sacristias, descermos dos púlpitos e altares, para, humildemente, sentados nos bancos, ao lado dos fiéis, ouvirmos o que eles esperam de nós, os responsáveis pela condução da Igreja.


Vamos confeccionar novos odres para acomodarmos esse vinho novo, vigoroso e saboroso, que constantemente é produzido pela vinha de Deus, para que com ele, maduro, possamos agregar mais fiéis, inebriando-nos todos deste maravilhoso vinho novo, revelado por João, na passagem das Bodas de Caná.


Fonte: Antonio Miguel Kater Filho

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