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03.Jun - Ecumenismo se faz com obras de caridade e querendo-se bem, diz Papa
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Ecumenismo se faz com obras de caridade e querendo-se bem, diz Papa

No voo de volta para Roma, após três dias na Romênia, o Papa Francisco falou à imprensa sobre a conclusão da sua 30a Viagem Apostólica e recordou o Dia das Comunicações Sociais que foi celebrado neste domingo, 2.


 


Aos jornalistas, o Santo Padre afirmou: “Hoje, este dia recorda vocês, o nosso pensamento vai a vocês: vocês que trabalham na comunicação, são operadores e são, ou deveriam ser, testemunhas da comunicação. Hoje a comunicação vai para trás, em geral. Vai mais longe no ‘contato’, fazer ‘contatos’ e não conseguir comunicar. Vocês, por vocação, são testemunhas da comunicação, devem fazer ‘contatos’, mas devem comunicar. Um pouco menos de contatos e mais comunicação”.




Emigração


 


Depois de recordar o Dia das Comunicações Sociais o Pontífice respondeu às perguntas dos jornalistas, sendo a primeira delas sobre o tema emigração. “Qual é a sua mensagem para uma família que deixa seus filhos para trabalhar no exterior?”, questionou a jornalista Diana Coada. O Papa respondeu: “Isso me faz pensar na família que se separa, há sempre nostalgia de se encontrar. Separar-se para que não falte nada aos filhos é um ato de amor”.


 


Francisco prosseguiu afirmando que a emigração é sempre uma situação dolorosa, que as pessoas partem por necessidade e que muitas vezes essa decisão é resultado de uma política mundial que incide sobre isto. À jornalista romena, o Santo Padre afirmou: “Conheço a história do seu país após a queda do comunismo e, depois, muitas empresas estrangeiras fecharam as portas para abrirem em outro lugar e ganhar mais. Fechar uma empresa e deixar as pessoas na rua. Esta é também uma injustiça mundial, geral: é falta de solidariedade”.


 


“Há sofrimento, não é fácil na atual situação mundial, oferecer oportunidades de emprego, e pensar que se vocês têm uma taxa de natalidade impressionante, não se vê aqui o Inverno demográfico! E é uma injustiça não ter trabalho para tantos jovens. Por isso, faço votos de que esta situação, que não depende só da Romênia mas da ordem financeira mundial, seja resolvida. Muitas pessoas ficam sozinhas. Há necessidade da solidariedade mundial e, neste momento, a Romênia está na Presidência da União Europeia”, constatou o Santo Padre.


 


Católicos e ortodoxos


 


O jornalista romeno, Cristian Micaci, questionou o Papa sobre a essência do termo “caminhar juntos”, muito utilizada pelo Pontífice ao se referir aos católicos e ortodoxos. “Gostaria de lhe perguntar o que nos aconselha: qual deveria ser a relação entre as confissões, entre católicos e ortodoxos? Quais são as relações entre os vários grupos étnicos e o mundo político?”, questionou o jornalista.


 


O Papa respondeu: “Eu diria a relação da mão estendida, quando há conflitos. Hoje no país há um alto nível de nascimentos, se deve fazer um processo de aproximação entre diferentes grupos étnicos, confissões religiosas, compromisso, mãos estendidas, escutar o outro. Com os ortodoxos: vocês têm um grande patriarca, um homem de grande coração, um grande estudioso, conhece a mística dos pais do deserto, a mística espiritual, estudou na Alemanha e é também um homem de oração. É fácil aproximar-se de Daniel. Conversamos como irmãos. Caminhamos juntos!”.


 


O ecumenismo não é chegar ao fim do jogo, das discussões, explicou Francisco. Segundo o Santo Padre é preciso não só caminhar, mas andar juntos e rezar juntos. “Temos na história o ecumenismo de sangue: quando matavam os cristãos não perguntavam: você é católico? Você é ortodoxo? Você é luterano? Eles perguntavam: você é cristão? Há o ecumenismo do testemunho, do sangue e depois o ecumenismo dos pobres, trabalhando juntos para ajudar os pobres, os doentes, os enfermos, como lemos no capítulo 25 de Mateus. Caminhar juntos, mas não esperar que os teólogos cheguem a um acordo para chegar à Eucaristia comum”, destacou.


 


“O ecumenismo se faz junto com as obras de caridade e querendo-se bem. Em uma cidade da Europa havia uma boa relação entre o arcebispo católico e o arcebispo luterano. O católico devia vir ao Vaticano no domingo à noite. Ele me ligou e me disse: ‘Vou chegar na segunda-feira, porque o luterano me disse que tinha que partir e me pediu: Pode vir à minha catedral e fazer o culto?’. E ele o fez. Quando eu estava em Buenos Aires, fui convidado pela Igreja Escocesa para pregar em suas funções. Podemos caminhar juntos: unidade, fraternidade, mão estendida, não falar dos outros. Todos temos defeitos”, completou.




Língua


 


No primeiro dia do Papa na Romênia, durante visita à catedral ortodoxa, o jornalista Xavier Le Normand afirmou ter percebido que o momento da oração do Pai Nosso foi um pouco difícil para o Pontífice. “Vocês estavam juntos, mas não rezavam juntos. No que o senhor pensou quando ficou em silêncio durante o Pai Nosso em romeno?”, indagou.


 


O Santo Padre explicou: “Farei uma confidência, eu não fiquei em silêncio, rezei o Pai Nosso em italiano e vi a maioria das pessoas rezando seja em romeno seja em latim. As pessoas vão além de nós, líderes. Nós líderes devemos fazer equilíbrios diplomáticos para garantir que caminhamos juntos, há hábitos, é bom conservar para que as coisas não se arruínem, mas as pessoas também rezam juntas, também nós quando estamos sozinhos rezamos juntos. Uma experiência que tive com muitos pastores e ortodoxos. Sim, temos pessoas fechadas que dizem que os ortodoxos são cismáticos: são coisas velhas. Há grupos católicos que são um pouco integristas, devemos rezar ao Senhor por eles. Mas eu, na catedral, eu rezei”.


 


Eleições na Itália


 


Manuela Tulli questionou o Papa: “Nestas eleições, líderes como o italiano Salvini fizeram campanha mostrando símbolos religiosos, terços, cruzes, consagrações ao Coração Imaculado. O que o senhor pensou sobre isso? É verdade que não quer encontrá-lo?”. Francisco frisou não ter recebido ninguém do governo, exceto o primeiro-ministro que fez pedido de acordo com o protocolo. “Foi uma boa audiência, de uma hora de duração”, recordou.


 


Ainda sobre o primeiro-ministro da Itália, o Pontífice constatou: “Ele é um homem inteligente, professor, ele sabe do que está falando. Dos vice-premiers e outros ministros não recebi pedidos de audiência. Sobre as imagens da campanha eleitoral: já confessei que muitas vezes leio o jornal do ‘partido’ que é ‘L’Osservatore Romano’, e li há chaves interpretativas muito interessantes. E depois o ‘Messaggero’ que eu gosto porque tem títulos grandes… Eu folheio-o assim. Eu não entrei nessas notícias, na propaganda, como um partido fez, como outro partido fez… Confesso que sou ignorante, não posso dar uma opinião sobre as atitudes da campanha eleitoral de um dos partidos”


 


O Santo Padre afirmou rezar para que a Itália avance, os italianos se unam e sejam leais ao seu compromisso. “Sou italiano porque sou filho de emigrantes italianos, todos os meus irmãos têm cidadania, eu não pude tê-la porque, neste meio tempo, me tornei bispo… Há na política de tantos países a doença da corrupção, em todos os lugares, em todos os lugares, mas não digam que eu disse que a política italiana é corrupta! Isto é universal”, destacou.


 


Sobre os acordos políticos, o Papa comentou ter escutado certa vez como são feitos. “Imaginem uma reunião, com nove empresários sentados à mesa. Eles discutem para concordar sobre o desenvolvimento de suas empresas, no final após horas e horas eles entram em acordo. Enquanto imprimem o acordo, tomam uísque, e enquanto passam os papéis para assinar, debaixo da mesa eu faço outro acordo. Isto é corrupção. Devemos ajudar os políticos a serem honestos e a não fazer campanha com bandeiras desonestas, calúnias, difamações, escândalos, e tantas vezes semeiam ódio e medo. Isto é terrível. O político não deve semear ódio e medo, somente esperança, correta, exigente, mas somente esperança”, exortou.


 


Os jovens, os idosos e as raízes


 


A jornalista Eva Maria Huescar recordou que com os jovens, Francisco insistiu sobre a relação com os avós para que tenham raízes e os avós possam sonhar. “O senhor não tem uma família perto, mas disse que para o senhor Bento XVI é como um avô. Continua a vê-lo assim?”, questionou. O Pontífice conta que ao visitar o Papa Emérito, sempre procura o fazer falar. “Ele fala pouco, fala lentamente com a mesma profundidade de sempre, tem uma grande lucidez e eu ouvindo ele falar, torno-me forte: o sumo da raiz ajuda-me a ir para frente”, sublinhou.


 


De acordo com o Santo Padre, a tradição é como as raízes que dão sumo para o crescimento. “Você vai florir! A tradição está sempre em movimento. Em uma entrevista que Monda fez há alguns dias no L’Osservatore Romano, há uma citação que eu gostei muito, de Gustav Malher, falando de tradições, dizia que ‘a tradição é a garantia do futuro e não a custódia das cinzas’. A tradição conserva não as cinzas, esta é a nostalgia dos integristas, mas são as raízes que permitem que a árvore cresça. Tudo o que a árvore tem fora vem do que tem debaixo da terra”, sublinhou.




Europa


 


“Nestes dias o senhor falou de fraternidade das nações e de caminhar juntos, mas vemos que na Europa há um número crescente de pessoas que não desejam a fraternidade e preferem caminhar sozinhas. O que podemos fazer para mudar?”, indagou o jornalista Lucas Franz Helmut Wiegelmann.


 


O Papa ponderou: “A Europa não deve dizer: arranjem-se vocês e avancem. Todos somos responsáveis pela União Europeia e a circulação da Presidência da UE não é um gesto de cortesia, mas sim um símbolo da responsabilidade de cada um dos países. Se a Europa não for grande face aos desafios futuros, ficará murcha”.


 


Segundo Francisco, a Europa de mãe está se tornando a vovó Europa. “Talvez alguém escondido pode se perguntar: não será este o fim da aventura que começou há 70 anos?”, refletiu. Para o Pontífice, é preciso que a Europa retome a mística dos pais fundadores, reencontre-se e supere as divisões das fronteiras.


 


“Estamos vendo fronteiras na Europa e isso não é bom, é verdade que cada país tem a sua própria identidade e deve preservá-la, mas, por favor, a Europa não se deixe vencer pelo pessimismo e pelas ideologias, porque é atacada por ideologias, e nascem grupinhos na Europa. Pensem numa Europa dividida, vamos aprender com a história, não voltemos atrás”, sugeriu.


 


No final da entrevista, o Papa agradeceu à chuva. O Santo Padre explicou que a chuva lhe obrigou a fazer longas viagens de carro e a ver belas paisagens da Romênia. “Digo a vocês: rezem pela Europa, que o Senhor nos dê a graça. Espero sinceramente que a Europa volte a ser o sonho dos pais fundadores”, concluiu.


Fonte: Canção Nova

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