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22.Ago - Francisco: Dorothy Day, a beleza da fé que encontra Deus no amor pelos pobres
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Francisco: Dorothy Day, a beleza da fé que encontra Deus no amor pelos pobres

Francisco


A vida de Dorothy Day, como ela mesma nos conta nestas páginas, é uma das possíveis confirmações do que o Papa Bento XVI já sustentou vigorosamente e que eu mesmo recordei em várias ocasiões: "a Igreja cresce por atração, não por proselitismo". A maneira como Dorothy Day conta sua chegada à fé cristã atesta o fato de que não são os esforços ou estratagemas humanos que aproximam as pessoas de Deus, mas sim a graça que flui da caridade, a beleza que brota do testemunho, o amor que se torna fatos concretos.


Toda a história de Dorothy Day, essa mulher estadunidense que dedicou toda a sua vida à justiça social e aos direitos das pessoas, especialmente dos pobres, dos trabalhadores explorados, dos marginalizados pela sociedade, declarada Serva de Deus no ano 2000, é um atestado do que o Apóstolo São Tiago já afirmava em sua Carta: "mostra-me a tua fé sem obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras" (2:18).


Gostaria de destacar três elementos que emergem das páginas autobiográficas de Dorothy Day como lições valiosas para todos em nosso tempo: a inquietação, a Igreja e o serviço.


Dorothy é uma mulher inquieta: quando vive o seu caminho de adesão ao cristianismo, ela é jovem, ainda não tem nem trinta anos, e há muito tempo abandonou a prática religiosa, que lhe parecia, como aponta seu irmão a quem ela dedica este livro, uma coisa "obsessiva". Em vez disso, crescendo em sua própria busca espiritual, ela passa a considerar a fé e Deus não como um "paliativo", para usar uma famosa definição do teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, mas como o que realmente deveria ser, ou seja, a plenitude da vida e o objetivo de sua própria busca pela felicidade. Dorothy Day escreve: "Na maioria das vezes, os vislumbres de Deus surgiam quando eu estava sozinha. Meus detratores não podem dizer que foi o medo da solidão e da dor que me fez recorrer a Ele. Foi nesses poucos anos em que eu estava sozinha e muito feliz que O encontrei. Finalmente, eu O encontrei por meio da alegria e da ação de graças, não por meio da dor".


Aqui, Dorothy Day nos ensina que Deus não é um mero instrumento de consolação ou alienação para o homem na amargura de seus dias, mas que Ele preenche nosso desejo de alegria e realização em abundância. O Senhor anseia por corações inquietos, não por almas burguesas que se contentam com o que existe. E Deus não tira nada do homem e da mulher de cada tempo, ele apenas dá cem vezes mais! Jesus não veio para proclamar que a bondade de Deus é um substituto para o ser humano; em vez disso, ele nos deu o fogo do amor divino que realiza tudo o que é belo, verdadeiro e justo que habita no coração de cada pessoa. Ler estas páginas de Dorothy Day e seguir seu itinerário religioso torna-se uma aventura que faz bem ao coração e pode nos ensinar muito a manter viva em nós uma imagem verdadeira de Deus.


Dorothy Day, em segundo lugar, reservou belas palavras para a Igreja Católica, que, para ela, proveniente e pertencente ao mundo do compromisso social e sindical, muitas vezes parecia estar do lado dos ricos e dos proprietários de terras, não raro insensíveis às exigências da verdadeira justiça social e da igualdade concreta em que - a própria Day nos lembra - tantas páginas do Antigo Testamento são ricas. À medida que sua adesão às verdades da fé aumentava, também crescia sua consideração pela natureza divina da Igreja Católica. Não com um olhar de fideísmo acrítico, quase uma defesa de oficio de seu novo "lar" espiritual, mas com uma atitude honesta e esclarecida, que sabia discernir na própria vida da Igreja um elemento de ligação irredutível com o mistério, para além das muitas e repetidas quedas de seus membros.


Dorothy Day observa: "os próprios ataques dirigidos contra a Igreja provaram para mim sua divindade. Somente uma instituição divina poderia ter sobrevivido à traição de Judas, à negação de Pedro, aos pecados de muitos que professavam sua fé, que deveriam ter cuidado de seus pobres". E, em outra passagem do texto, ele afirma: "sempre pensei que as fragilidades humanas, os pecados e a ignorância daqueles que ocupam altos cargos ao longo da história apenas provaram que a Igreja deve ser divina para perdurar através dos tempos. Eu não teria culpado a Igreja pelo que eu acreditava fossem os erros dos eclesiásticos".


Como é bonito ouvir essas palavras de uma grande testemunha da fé, da caridade e da esperança no século XX, o século em que a Igreja foi objeto de críticas, aversões e abandonos! Uma mulher livre, Dorothy Day, capaz de não esconder o que ela não tem medo de chamar de "erros dos eclesiásticos!", mas que admite que a Igreja tem a ver diretamente com Deus, porque é sua, não nossa, Ele a quis, não nós, ela é Seu instrumento, não algo que possamos usar. Essa é a vocação e a identidade da Igreja: uma realidade divina, não humana, que nos leva a Deus e por meio da qual Deus pode nos alcançar.


Por fim, o serviço. Dorothy Day serviu aos outros durante toda a sua vida. Mesmo antes de chegar à fé em sua forma plena. E esse fato de se colocar à disposição, por meio de seu trabalho como jornalista e ativista, tornou-se uma espécie de "autoestrada" pela qual Deus tocou seu coração. E é ela mesma que lembra o leitor de como a luta pela justiça é uma das maneiras pelas quais, mesmo sem saber, cada pessoa pode realizar o sonho de Deus de uma humanidade reconciliada, na qual a fragrância do amor sobrepuja o cheiro nauseante do egoísmo. As palavras de Dorothy Day são muito esclarecedoras a esse respeito: "O amor humano em sua melhor forma, altruísta, brilhante, iluminando nossos dias, nos dá um vislumbre do amor de Deus pelo homem. O amor é a melhor coisa que nos é dada a conhecer nesta vida". Isso nos ensina algo realmente instrutivo ainda hoje: crentes e não-crentes são aliados na promoção da dignidade de cada pessoa quando amam e servem o mais abandonado dos seres humanos.


Quando Dorothy Day escreveu que o slogan dos movimentos sociais para os trabalhadores de sua época era "problema de um, problema de todos", lembrei-me de uma famosa declaração de padre Lorenzo Milani, o sacerdote de Barbiana cujo centenário de nascimento está sendo comemorado este ano, que faz o protagonista de Carta a um Professor dizer: "aprendi que o problema dos outros é o mesmo que o meu. Sair disso tudo juntos é política. Sair disso sozinho é avareza". Portanto, o serviço deve se tornar política, ou seja, escolhas concretas para que a justiça prevaleça e a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada. Dorothy Day, que eu quis lembrar em meu discurso ao Congresso dos Estados Unidos durante minha viagem apostólica em 2015, é um estímulo e um exemplo para nós neste árduo, mas fascinante caminho.


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Fonte: Vatican News

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